Luto coletivo, a dor que o Brasil não consegue viver
26/03/2021 22:52 em Novidades

No último sábado 1º de agosto, Rosemary Augusta Martins Albe completaria 62 anos. A data, no entanto, não foi marcada por comemorações. “Eu aproveitei o dia para abrir o guarda-roupa da minha mãe e tirar tudo de lá”, conta a filha, Nellifer Albe, 32, profissional da área da saúde. “A maior parte das roupas e objetos pessoas da minha mãe eu enviei para doação. Chorei, doeu, mas eu consegui retirar tudo em um único dia”. Dona Rose, ou “minha querida”, como era chamada pela filha, havia morrido exatamente um mês antes, vítima do coronavírus. Naquele momento, o luto da filha teve que esperar para ser vivido. “No velório da minha mãe, minha maior preocupação era com o meu pai, que é diabético, cardíaco e também estava com coronavírus”. Além do pai e da mãe, o irmão e a cunhada de Nellifer pegaram a covid-19. Ela, até o momento, testou negativo para a doença.

A dor da família Albe, uma dentre as milhares que não puderam se despedir de um parente que morreu em decorrência da covid-19, se choca com uma realidade paralela que insiste em pregar a normalidade. “As pessoas não acreditam nos números, mas um dia minha mãe foi esse número”, diz Nellifer. “No jornal daquela noite em que ela morreu, ela fazia parte daqueles números anunciados. Eu sinto pelas pessoas que não acreditam”. Os números oficiais dos quais a mãe de Nellifer hoje faz parte parecem crescer no mesmo ritmo do negacionismo. Se, há um mês, quando dona Rose morreu, o Brasil contabilizava 60.000 óbitos em decorrência da covid-19, hoje são mais de 100.000.

Ana Paula Melo Dias, médica de família e comunidade e especialista em finitude, explica que a negação da pandemia e, consequentemente, das perdas trazidas por ela, dificultam o processo de luto. “É difícil para as pessoas que estão vivendo a dor não ter seu luto reconhecido”, afirma. “Você tem um luto latente, doloroso, e ver as pessoas defendendo a reabertura do comércio, falando que é ‘só uma gripezinha’, deixa o processo ainda mais doloroso”. A frase proferida pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) no primeiro mês da pandemia, em março, dividiu o país entre aqueles que levaram a sério a doença, e os que passaram a acreditar, assim como o presidente, que não se trata de algo tão grave.

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